Soaram um pouco por todo o mundo diferentes vozes e apelos à reflexão e a mudanças,  para corrigir a relação destrutiva que os seres humanos têm tido com o Sistema-Terra.

 

Seguem-se apontamentos extraídos de mensagens e opiniões expressas por ocasião do Dia da Terra: do papa Francisco; do secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres; do patriarca de Constantinopla, Bartolomeu I; de três especialistas em questões de Ambiente: Viriato Soromenho-Marques, Francisco Ferreira e Carmen Lima; do líder tibetano Dalai Lama; de Pedro Franco.

 

A catequese do Papa no Dia da Terra

Na audiência geral do dia 22 de Abril, o papa Francisco sugeriu que renovemos o nosso compromisso para com a casa comum, cuidando em especial dos mais frágeis. Sublinhou que, só cuidando dos membros mais frágeis da família humana e juntos, «podemos vencer os desafios globais». Depois de citar a encíclica Laudato Si’, lembrou que nos cabe cuidar e administrar a terra, mas não estivemos à altura dessa responsabilidade:

Falhámos em proteger a terra, nossa casa-jardim, e em proteger os nossos irmãos. Pecámos contra a terra, contra o nosso próximo e contra o Criador, o Pai bom que provê a todos e quer que vivamos juntos em comunhão e prosperidade.

Mais adiante, o Papa interroga-se sobre a maneira de «restabelecer uma relação harmoniosa com a terra e o resto da humanidade» e sugere que se procure «uma nova maneira de olhar a casa comum». O mundo natural é, para o crente, o “Evangelho da Criação”.

Ao celebrar o Dia Mundial da Terra hoje, somos chamados a redescobrir o sentido do respeito sagrado pela terra, porque não é apenas a nossa casa, mas também a casa de Deus. Daí vem a consciência em nós de estar numa terra sagrada!

Há um «sentido estético e contemplativo que Deus colocou em nós», diz Francisco.  observando que os povos nativos é que nos podem ensinar «a profecia da contemplação» pois eles sabem “bem viver”, viver em harmonia com a terra.

Ao mesmo tempo, precisamos de uma conversão ecológica expressa em ações concretas. Como uma família única e interdependente, precisamos de um plano compartilhado para afastar as ameaças contra nossa Casa comum.

Informação mais completa em Vatican News; vídeo da audiência no youtube.

 

Guterres propõe seis regras para o pós-covid-19

Na sua mensagem para o Dia da Terra, o secretário-geral das Nações Unida propõe seis medidas políticas para tornar o mundo mais verde na retoma das actividades depois da pandemia. António Guterres reconhece que a covid-19 é agora uma prioridade, mas faz notar que a crise ambiental é outra séria emergência.

«Devemos agir sem hesitação para proteger o nosso planeta, tanto do coronavírus como da ameaça existencial das perturbações climáticas», declara . «Precisamos transformar a recuperação numa oportunidade real de fazer as coisas certas para o futuro», diz mais adiante, antes de enunciar seis orientações que vão nesse sentido.

  • Primeiro: ao gastar enormes quantias de dinheiro para recuperar do coronavírus, precisamos de criar novos empregos e negócios através de uma transição limpa e verde.
  • Segundo: quando o dinheiro dos contribuintes for usado para resgatar empresas, este deve estar vinculado à obtenção de empregos verdes e ao crescimento sustentável.
  • Terceiro: o poder das políticas orçamentais deve mudar a economia cinza para a verde e tornar as sociedades e as pessoas mais resilientes.
  • Precisamos trabalhar juntos enquanto comunidade internacional
  • Quarto: os fundos públicos devem ser usados para investir no futuro, não no passado, e utilizados em setores e projetos sustentáveis que ajudam o meio ambiente e o clima.
  • Os subsídios aos combustíveis fósseis devem terminar e os poluidores devem começar a pagar pela sua poluição.
  • Quinto: os riscos e as oportunidades relacionados com o clima devem ser incorporados no sistema financeiro, bem como em todos os aspetos da formulação de políticas públicas e de infraestruturas.
  • Sexto: precisamos trabalhar juntos enquanto comunidade internacional.

Ler toda a mensagem aqui.

 

Mensagem de Bartolomeu I, patriarca de Constantinopla

Em sintonia com o papa Francisco e a encíclica Laudato Si’, o patriarca ecuménico escreveu uma mensagem para o Dia da Terra, insistindo em caminhos mais fraternos. Aponta para mudanças que tardam, enquanto se agravam ameaças para a «casa de todos os seres vivos e não apenas do homem». A arrogância e ambição guiada por interesses egoístas esquecem, diz Bartolomeu, «a justiça, o amor recíproco, a ajuda aos mais pobres e necessitados, o respeito pelos outros, a sede da presença de Deus».

Recordar o 50.º Dia Mundial da Terra, em tempo de pandemia mundial, que colocou todo o planeta “em repouso”, deve nos fazer refletir sobre tudo o que prometemos e não mantivemos nestes 50 anos de comemorações.

De mãos dadas, como irmãos, gritamos a toda a humanidade, para que pare, que acolha o grito de dor que nasce da natureza ferida, desta nossa casa comum, dentro da qual nos tornamos tiranos e não agentes de paz e bons administradores.

Bartolomeu I observa que a situação presente fez que «toda a humanidade desse conta da sua fragilidade, da importância das relações interpessoais». e conclui:

Encontrando a harmonia dentro de nós, redescobrindo-nos e doando-nos novamente uns aos outros, teremos a possibilidade de recuperar a nossa vida e de superar este momento e voltar a ter uma nova relação com a Terra e com todo o cosmo, porque todas as coisas nos foram dadas por Deus para o bem. A escolha é de todos nós juntos.

(Fonte: Vatican News)

 

Considerações de três especialistas

Viriato Soromenho-Marques, Francisco Ferreira e Carmen Lima, todos membros da rede Cuidar da Casa Comum, são unânimes em falar de mudanças de hábitos em resposta à crise climática. Os três especialistas em questões do Ambiente, que falaram ao Público a propósito do Dia da Terra, referem todo um sistema que tem vindo a ser cada vez mais agredido pela acção humana, impondo-se mudanças profundas na nossa relação com o Planeta.

Soromenho-Marques associa a pandemia de covid-19 à crise global do planeta, como «uma reacção de um sistema que está a ser completamente mal gerido pela intervenção humana». Recomenda, por isso, que não tardem «acções inspiradas por uma visão holística do ambiente». Francisco Ferreira salienta que é tempo de «corrigirmos o que têm sido os problemas em vários domínios na nossa relação com o planeta», e faz notar que a «relação quase promíscua com os animais selvagens levou a um conjunto de doenças pandémicas à escala mundial”. Carmen Lima considera que o «abanão» da pandemia está a levar as pessoas a «repensar os seus hábitos de consumo» e o Dia da Terra deve servir para planear o que pode mudar a partir de agora.

 

Mensagem do Dalai Lama no Dia da Terra

O líder espiritual dos tibetanos considera que a situação causada pela pandemia de covid-19 constitui um dos maiores desafios à saúde e bem-estar da população mundial e deve fazer perceber o valor da compaixão e da ajuda mútua. Perante esta ameaça que recai sobre todos sem distinções, diz, «a nossa resposta deve ser como uma só humanidade, provendo às necessidades mais essenciais de todos». Se soubermos sentir empatia e proximidade em relação aos outros, descobriremos um sentido genuíno de «responsabilidade universal» que nos moverá a ajudar activamente outros a superar os seus problemas. E observa: «A mãe terra está a dar-nos uma lição de responsabilidade universal».

O Dalai Lama lembra a importância do acesso a cuidados de saúde de boa qualidade para enfrentar esta pandemia, bem como outras crises futuras, e lembra que é isso precisamente que está previsto, com vista à saúde global, nos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas. É imperativo, diz a concluir a mensagem, «agir em espírito de solidariedade e cooperação, em especial para com os menos afortunados em todo o mundo», esforçando-nos todos por construir um mundo mais feliz e saudável.

Mensagem na íntegra, em inglês, aqui)

 

A economia tem de cuidar da casa comum

No Dia da Terra e enfrentando a pandemia, sobressai a necessidade de exigir uma economia que respeite o planeta e esteja ao serviço de todos. O receio da inevitável crise económica causada pelas restrições impostas para suster os contágios não pode fazer esquecer a gravidade dos efeitos da crise climática. Pedro Franco, membro da rede Cuidar da Casa Comum, salienta, num texto publicado no Ponto SJ, que haverá danos socioeconómicos crescentes e sistémicos, que afectarão mais gravemente as populações com menos recursos.

Considerando diferentes pareceres que têm vindo sucessivamente a lume, Pedro Franco conclui que «cuidar do clima é cuidar da economia, que deve servir as pessoas; é acautelar a boa gestão da nossa casa comum, através de uma regulação económica que tem em conta os limites do planeta; é tentar mitigar os efeitos das alterações climáticas e adaptar a vida das pessoas àqueles que já se revelam inevitáveis».

Cita ainda a Laudato Si’ e deixa um apelo a todos:

“[…] para se resolver uma situação tão complexa como esta que enfrenta o mundo atual, não basta que cada um seja melhor. […] A conversão ecológica, que se requer para criar um dinamismo de mudança duradoura, é também uma conversão comunitária” (LS 219). Em tempos de isolamento, precisamos de nos juntar, refletir e agir. Todos em defesa de cada um.

 

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