Entrevista ao ministro do Ambiente

Transição energética, roteiro para a neutralidade carbónica, capacidade de sumidouro, economia circular, circularidade e descarbonização, obrigações verdes, diversidade de mosaicos de paisagem, serviços de ecossistemas, benefícios fiscais perversos – eis algumas das expressões que

não nos eram familiares até há pouco tempo, mas que foram referidas em entrevista pelo ministro João Pedro Matos Fernandes, cujo ministério agora se chama “do Ambiente e da Transição Energética”. Foi entrevistado no princípio de Dezembro pelo jornal Público.

Para além dos carros eléctricos a 100 por cento e partilhados que aí vêm, o roteiro do Governo para a neutralidade carbónica em 2050 preconiza mudanças profundas, como a redução da produção de bovinos entre 25 e 50 por cento, o aumento da capacidade de sumidouro da floresta em quatro megatoneladas de dióxido de carbono ou a redução para metade da média da área de floresta ardida. Para que o saldo líquido de emissões de CO2 passe das 60 megatoneladas em 2015 para zero em 2050, explica o ministro.

Vale a pena ler na íntegra esta conversa esclarecedora com a jornalista Lurdes Ferreira, mas aqui ficam alguns destaques que dão que pensar:

  • Este roteiro [RNC 2050 – Roteiro para a Neutralidade Carbónica] mostra que é possível Portugal ter uma economia neutra em carbono em 2050.
  • É um esforço que passa por todos, pelo comportamento dos próprios cidadãos, mas passa por todos os sectores, desde logo pelo eléctrico e da mobilidade.
  • É sobretudo nas opções de produção de energia e na mobilidade que são mais evidentes os ganhos. […] tem que ver com a diminuição expressiva da dependência energética em relação ao exterior. […] Isto é poupar 125 mil milhões de euros em importações entre a data de hoje e 2050.
  • [Para que custos em concreto os sectores económicos têm de estar preparados?]
    Não falaria em custos, mas em investimento. […] É obvio que tem que haver planos para um conjunto de sectores onde vai haver uma transição razoavelmente brusca.
  • E em relação à indústria e agricultura e florestas?
    […] não falamos de forma alguma de perda líquida de emprego, mas de emprego muito mais qualificado.
  • Tudo isto vem também no quadro de uma maior liberalização do comércio no mundo, onde a carne de vaca vai chegar a Portugal a preços mais competitivos em muitos casos em relação aquela que conseguimos produzir. Por isso, o aumento da área agrícola, particularmente nos cereais e pomares, está contemplado no roteiro como da maior importância para consolidar a capacidade de neutralidade de sumidouro que temos.
  • Acreditamos mesmo, pelas contas que temos, que em 2030 um terço da mobilidade terrestre em Portugal já vai ser eléctrica e que nessa década vai deixar de ser compensador um carro com motor a gasóleo.
  • Estamos na linha da frente, não temos dúvidas do contributo que temos de dar para o planeta como grande grande emissor que a Europa é, mas acreditamos que este é um projecto de criação de riqueza, de emprego e de bem-estar.
  • O nosso [roteiro] tem um grau de detalhe […] com metas muito claras, com a introdução a cada tempo das tecnologias que são mais custo-eficazes. É por aí que se faz a mudança. […] Vai ser mesmo muito compensador a aquisição de veículo eléctrico e a seguir movido a hidrogénio.
  • Temos mesmo de começar a emitir obrigações verdes. […] A cada ano uma parcela das obrigações públicas emitidas tem que ser para investimentos no domínio ambiental e consigná-las a esses mesmos investimentos.
  • No mesmo dia em que o Painel das Nações Unidas disse que temos 12 anos para nos salvar, porque já vamos em 1,2 graus a mais do que no tempo da Revolução Industrial, muito discretamente um relatório do FMI dizia que a economia acaba de entrar em slow-down, que temos de investir, extrair e acumular stock. São relatórios contraditórios entre si. Estas receitas do FMI são sempre as mesmas.
  • Temos é de saber crescer numa economia hipocarbónica e regeneradora de recursos que é mesmo criadora de riqueza muito mais sustentável e de bem-estar muito mais partilhado.
  • Tem de haver um contributo grande dos transportes colectivos, mas estamos também a falar do carro de cada um. E aí é muito evidente o que vão ser os ganhos num prazo que não é nada largo para adquirir um carro eléctrico, em vez de um a combustível fóssil.
  • Temos de mudar a paisagem do país, ter muito maior presença florestal e diversidade de mosaicos de paisagem que vão ser suportados – não há outra forma – com os serviços de ecossistemas. As obrigações verdes são uma forma excelente de [os] poder pagar.
  • Tudo isto se passa entre hoje e 2050, num cenário já de adaptação [às alterações climáticas]. Estamos a falar num crescimento enorme da produção de energia a partir de fontes renováveis, com um aumento muito expressivo da energia solar, da eólica. Da hídrica também há um aumento durante uma parte deste período até 2050, depois há um decréscimo por necessidade de dar outros destinos a essa mesma água. Estamos na bacia mediterrânica e o consumo que temos é maior do que a água que cai a cada ano pela chuva e que repõe os ecossistemas aquáticos.
  • Temos de ter uma floresta mais bem gerida, mais adaptada ao próprio território, onde as folhosas têm de ter um papel muito mais relevante, estamos a falar de um ciclo longo e onde a compensação entre as espécies que dão mais rendimento aos produtores e as de crescimento mais lento, mas mais adaptadas ao território, têm de ser compensadas com serviços de ecossistemas. Têm de ser remunerados aqueles que fizerem essas opções.
  • [A indústria] vai essencialmente electrificar-se. Do ponto de vista fiscal temos necessariamente de reduzir gradualmente os benefícios fiscais perversos, associados aos combustíveis fósseis.